3. BRASIL 8.5.13

1. INVESTIGAO PARALELA
2. O GOLPE DO PATROCNIO
3. A MINA DE GRAMPOS DA VALE
4. INSATISFAO ESCONDIDA
5. FIDELIDADE ABSOLUTA
6. S PARA TUMULTUAR

1. INVESTIGAO PARALELA
Numa investida considerada mal-intencionada pelo prprio governo, a Secretaria-Geral da Presidncia da Repblica tentou sabotar a sindicncia da Casa Civil que investigou a ex-secretria Rosemary Noronha,
ROBSON BONIN

     H duas semanas, VEJA revelou as concluses de uma sindicncia do governo que investigou as traficncias de Rosemary Noronha no perodo em que ela chefiava o escritrio da Presidncia da Repblica em So Paulo. Coordenada pela Casa Civil, a apurao desvendou como a ex-funcionria usava a influncia e a intimidade que desfrutava com o ex-presidente Lula para se locupletar do poder. Ao fim de dois meses de trabalho, os tcnicos reuniram provas que resultaram na abertura de um processo disciplinar contra ela por enriquecimento ilcito. A investigao chamou ateno pela celeridade, profundidade e contundncia com que se esmiuaram os malfeitos da ex-chefe de gabinete  um ponto fora da curva na tradio petista de poupar os companheiros pilhados em falcatruas. O desfecho, porm, no deveria ter sido esse. Desde o primeiro dia de investigaes, foras poderosas dentro do prprio governo aluaram para impedir a sindicncia de chegar ao fim. Essas foras tentaram, felizmente em vo, evitar que a sindicncia terminasse da maneira como terminou. VEJA teve acesso a um documento que mostra como a Secretaria-Geral da Presidncia da Repblica montou um processo paralelo com a falsa inteno de "acompanhar e orientar" a apurao da Casa Civil  mas que no passava de um ardiloso instrumento de sabotagem do trabalho de investigao. 
     Concluda no fim de janeiro, a sindicncia da Casa Civil trouxe uma radiografia das delinquncias de Rosemary entre 2007 e novembro de 2012, o perodo em que chefiou o escritrio presidencial. Amparados nas evidncias colhidas pela Polcia Federal durante a Operao Porto Seguro, os tcnicos do governo realizaram uma devassa no gabinete de So Paulo e comprovaram que Rosemary, uma ex-secretria petista, usava o cargo para traficar interesses milionrios, influenciar em decises favorveis a empresrios e at nomear parentes na estrutura pblica. O resultado da sindicncia foi materializado num calhamao de 120 pginas, depois de uma inusitada disputa dentro do Palcio do Planalto pelo controle da investigao, que comeou em 26 de novembro do ano passado. Nessa data, por determinao da presidente Dilma Rousseff, a Casa Civil abriu a sindicncia para apurar as supostas irregularidades praticadas por Rosemary. No mesmo dia, a Coordenao-Geral de Correio (Coreg), rgo subordinado  Secretaria-Geral da Presidncia, instaurou um processo "com vista a obter informaes, acompanhar as apuraes e orientar os rgos envolvidos" na sindicncia. Governo investigando a investigao do governo? Alm de inusitado, o procedimento parecia estranho. E era. A primeira investida da apurao da Secretaria-Geral foi contra a presidente da Repblica. Os tcnicos encaminharam ofcio ao gabinete questionando Dilma Rousseff sobre a instaurao da sindicncia na Casa Civil, uma vez que Rosemary Noronha no era servidora daquela repartio e, portanto, a pasta no teria competncia para investig-la. 
     A presidente desconfiou que havia algo esquisito ali. Foi informada por assessores de que o ministro Gilberto Carvalho, o chefe da Secretaria-Geral, amigo do ex-presidente Lula e colega de Rosemary, dera sinal verde para a apurao paralela  que seria conduzida como um procedimento burocrtico normal. A presidente  manteve sua deciso de investigar o escndalo na Casa Civil. Uma segunda e mais contundente investida ocorreu no fim de dezembro. Depois de recolherem provas do envolvimento da ex-secretria em irregularidades, os responsveis pela sindicncia na Casa Civil se preparavam para finalizar os trabalhos. Foi quando chegou ao processo o documento resumindo as concluses da investigao paralela promovida pela Secretaria-Geral, contendo uma srie de ressalvas e advertncias sobre o trabalho da comisso de sindicncia. Se para os tcnicos da Casa Civil ainda havia alguma dvida sobre as intenes do rgo vizinho, naquele momento ela se dissipou. 
     A pasta de Gilberto Carvalho atacou em diferentes frentes o trabalho da Casa Civil, utilizando para isso um documento assinado pelo coordenador-geral de Correio, Torbi Rech, o mesmo que, em 2010, presidiu a sindicncia que livrou a ex-ministra Erenice Guerra de graves acusaes de trfico de influncia no governo. Primeiro, voltou a lembrar que Rosemary no era funcionria da pasta e reafirmou que quem teria competncia para investig-la era a prpria Secretaria-Geral. Depois, apontou supostas incoerncias na redao da portaria que autorizou a abertura do processo e cobrou o direito de Rosemary ao contraditrio. Ponto crucial de uma estranha coincidncia, o documento que tentou implodir juridicamente a investigao contra a ex-chefe de gabinete foi elaborado no mesmo dia em que os integrantes da sindicncia tentaram notific-la a depor. 
     Por ordem da presidente Dilma, a advertncia foi totalmente ignorada. A ministra Gleisi Hoffmann encaminhou o relatrio final  Controladoria-Geral da Unio, que abriu processo administrativo contra Rosemary Noronha. Procurada, a Secretaria-Geral disse que no tentou interferir nos rumos da investigao, no requereu documentos da sindicncia nem usou de argumentos jurdicos para fragilizar a investigao contra Rosemary. O processo paralelo que foi aberto, segundo o rgo, nada mais  do que um "procedimento comum" de acompanhamento. Procedimento comum que, para os advogados de defesa de Rosemary, ser suficiente para, no mnimo, questionar a legalidade da investigao e, no limite, pedir a anulao de tudo o que foi feito.


2. O GOLPE DO PATROCNIO
Assessor do vice-presidente da Cmara tentou enganar a Petrobras e a Caixa falsificando cartazes com anncios das empresas no Carnaval de Londrina, base eleitoral do parlamentar.
HUGO MARQUES

     Assessor e amigo do deputado Andr Vargas, ex-secretrio de comunicao do PT e vice-presidente da Cmara dos Deputados, o petista Andr Guimares  um especialista em difamar adversrios do partido na internet. Ele  o criador da Rede PT13, uma organizao virtual formada por blogs apcrifos e perfis falsos que se dedica a atacar  com informaes mentirosas e montagens fotogrficas  aqueles que ousam defender teses contrrias s do petismo. A blogueira Yoani Snchez, por exemplo, foi alvo desse ciberguerrilheiro quando visitou o Brasil, no incio do ano, para discorrer sobre as agruras da populao cubana sob a ditadura dos irmos Castro. Esse trabalho sujo, to admirado pelos radicais, abriu os cofres oficiais a Andr Guimares. Como VEJA revelou em maro, ele negociava seu know-how difamatrio com prefeitos petistas, em contratos de at 30.000 reais. Os valores so apenas uma parte das rentveis atividades realizadas pelo assessor. O cupincha do deputado Andr Vargas tambm aposta alto e, no ltimo Carnaval, tentou aplicar um golpe de 180.000 reais na Caixa e na Petrobras. estatais comandadas pelo PT. 
     A tentativa de ataque ao bolso dos contribuintes foi feita no Carnaval organizado pela prefeitura de Londrina, municpio que  o bero poltico do deputado Andr Vargas. Guimares organizou um esquema de captao de recursos, que, em teoria, teriam como destinatrios as escolas de samba locais. Para intermediar o recebimento do dinheiro, ele recorreu a duas entidades  uma com sede em Londrina, chamada Adecesc, e a outra com sede em Braslia, batizada de Instituto Nijmeh. No plano do assessor petista, a primeira ficaria com o dinheiro transferido pela prefeitura. J a segunda receberia a verba enviada por Caixa e Petrobras. Os recursos, em ambos os casos, seriam aplicados na organizao e divulgao da festa  ou embolsados por terceiros caso a falcatrua no fosse descoberta a tempo. A prefeitura de Londrina at destinou 140.000 reais  Adecesc, presidida por Stanley Garcia, amigo de Guimares. Faltava a grana das estatais. Seguindo a orientao de Andr Guimares, o Instituto Nijmeh manteve contato com a Caixa e a Petrobras-Biocombustvel para receber 80.000 e 100.000 reais, respectivamente. A verba custearia a distribuio de folders, cartazes, camisetas e bons das estatais durante a festa. Depois do Carnaval, j com o servio de divulgao realizado, o dinheiro chegaria ao instituto. 
     Mas o dinheiro no chegou. A presidente do Instituto Nijmeh percebeu que estava sendo usada como laranja numa fraude. Ao acompanhar os desfiles. Hussaina Nijmeh viu pela TV e pela internet que ningum usava material promocional da Caixa e da Petrobras. Desconfiada, cobrou de Andr Guimares e Stanley Garcia a comprovao da distribuio das peas dos patrocinadores. Guimares, como j se disse,  um especialista em forjar informaes falsas  e, mais uma vez, no se fez de rogado. Acossado, ele mandou a Adecesc enviar para Hussaina em Braslia, via Sedex, uma caixa de papelo contendo algumas poucas camisetas, folders, cartazes e bons do Carnaval. Tudo com as marcas da Caixa e da Petrobras. Tudo fraudado. O material foi confeccionado s pressas depois que se descobriu a farsa. No passava, portanto, de uma tentativa de enganar o Instituto Nijmeh e os patrocinadores. At a foto que Hussaina recebeu de uma suposta "comisso de apurao" do Carnaval era montada. "A falcatrua foi deles. No vou sujar a reputao do instituto, que leva o nome do meu pai, com uma brincadeira de adolescente", disse Hussaina. 
     Ela contou que, depois de sua recusa em participar da fraude, o assessor petista passou a ameaar seus parentes de morte. Stanley Garcia, da Adecesc, confirmou ter procurado orientao de Andr Guimares sobre como captar recursos. Tambm admitiu que os patrocnios da Caixa e da Petrobras renderiam uma boa sobra de dinheiro, mas jurou que a quantia seria reinvestida no Carnaval do ano que vem. Algum duvida? Ele tambm reconheceu que o banner oficial do Carnaval s foi confeccionado trs semanas aps a festa. Uma fraude, portanto. "No vi nenhum  camiseta, bon ou cartaz com os nomes da Caixa e da Petrobras", contou a presidente da escola de samba Alegria da Passarela, Valquria Fernandes. Ex-funcionrio da Secretaria de Cultura de Londrina, Andr Guimares alegou que s sugeriu nomes e instituies que deveriam ser procurados como potenciais patrocinadores da festa, mas negou que tenha orquestrado a fraude. "No ganhei dinheiro nessa histria. Fao poltica h quinze anos e estou pobre. Abro o meu sigilo bancrio e fiscal para provar isso." 
     Em maro, o deputado Andr Vargas declarou ter sido surpreendido com a informao de que seu assessor e amigo vendia a prefeituras petistas sua tecnologia de guerrilha virtual. Agora, diz ter  sido surpreendido de novo. Curioso. Guimares  seu assessor direto na Cmara, amigo, e, at o Carnaval, morava com ele em Braslia. Procuradas, Caixa e Petrobras garantiram que no repassaro os recursos pretendidos pelo petista. Em Londrina, base poltica do deputado Andr Vargas, as autoridades ainda aguardam a prestao de contas. 


3. A MINA DE GRAMPOS DA VALE
Documentos indicam que a rea de segurana da mineradora funcionou, durante anos, como uma central de arapongagem.
MALU CASPAR E THIAGO PRADO

     Por seu tamanho e importncia, a Vale  um estado dentro do estado. Com receita anual de 90,9 bilhes de reais e operao em mais de trinta pases, a mineradora responde, sozinha, por 10,5% das exportaes brasileiras. Como toda grande companhia, ela dispe de um setor de segurana e inteligncia empresarial. Do 20 andar do edifcio-sede, no centro do Rio de Janeiro, 200 pessoas comandam outras 3000 espalhadas pelo pas. Sua misso  evitar roubos e ataques s instalaes, alm de rastrear e prevenir fraudes  tudo de forma discreta, para no arranhar a imagem da estatal.  uma rea ultrassensvel, na qual desembocam os mais incmodos segredos da corporao. Nas ltimas semanas, alguns deles comearam a vir  luz pelas mos de um ex-gerente de contratos do setor, Andr Almeida, 40 anos. Almeida afirma que sua equipe grampeou funcionrios e investigou jornalistas para apurar fraudes e vazamentos de informaes e infiltrou agentes em movimentos sociais que assombravam a Vale. VEJA conversou com o ex-gerente e teve acesso a fotos, relatrios e planilhas que ele entregou ao Ministrio Pblico Federal. Muitos dos fatos revelados so conhecidos de funcionrios e ex-funcionrios, que falaram a VEJA sob a garantia do anonimato. Eles confirmam que a rea de segurana de uma das maiores empresas privadas do Brasil atuou, durante anos, como central clandestina de arapongagem. 
     Demitido em maro de 2012 por uso indevido do carto corporativo da Vale, Almeida no se limita a produzir uma pea acusatria contra ex-chefes e colegas. Ele tambm se incrimina de forma incontornvel. "Acompanhei pessoalmente a instalao de grampos no aparelho telefnico de dois funcionrios  uma em 2005, a outra em 2008", conta. Foi incumbido da tarefa por Ricardo Gruba, um ex-colega de turma dos tempos de Exrcito e diretor de segurana da Vale. Almeida, que trabalhou com Gruba por oito anos, diz que os dois no eram os nicos ex-militares baseados no Rio: havia outros 100, alguns deles ex-agentes da Abin. Apelidados de "X9"  alcaguete, no jargo da criminalidade , eles tambm escoltavam "visitantes especiais", como o ex-ministro da Casa Civil Jos Dirceu (consultor da Vale na gesto do ex-presidente Roger Agnelli) e o ento tesoureiro do PT, Delbio Soares. 
     A misso mais espinhosa do ex-gerente foi levada a cabo na madrugada de um dos primeiros dias de 2008. Almeida e dois homens de uma firma especializada entraram na sala do gerente-geral de imprensa, Fernando Thompson. Em dez minutos, abriram o telefone do colega, instalaram o grampo e sumiram. O objetivo, diz ele, era checar se o chefe da imprensa estava repassando aos jornalistas informaes sigilosas sobre as negociaes para a compra da mineradora sua Xstrata  transao de 90 bilhes de dlares em que Agnelli apostava todas as fichas. Detalhes comearam a espocar nos jornais, e o CEO ficou to irritado que enviou uma carta aos conselheiros da Vale advertindo-os de que um vazamento seria crime passvel de priso. A compra da Xstrata naufragou dois meses depois. O grampo tambm no  deu em nada. Procurado, Thompson preferiu no comentar o caso. 
     Monitorar e-mails e contas de telefones corporativos  lcito e comum em organizaes grandes e complexas. Na Vale, os recm-chegados assinam inclusive um documento concordando em ceder tais informaes. Mas gravar conversas de funcionrios  ilegal. "Toda empresa tem o direito e o dever de proteger seu patrimnio, mas no pode lanar mo de espionagem. Isso  violao de privacidade, crime previsto na Constituio", explica o advogado e ex-desembargador do trabalho Caio Vieira de Mello. O mesmo se aplica aos movimentos sociais que a Vale vigiou. "A empresa pode ter representantes nas reunies, mas eles precisam se identificar. O contrrio configura cerceamento do direito  livre manifestao", esclarece o advogado. 
     A Vale passou ao largo de tudo isso. Em certos momentos, nem se disfarava o clima de desconfiana. Entre 2006 e 2008, pairou como uma sombra na empresa a figura de um ex-coronel do Shin Bet, agncia de inteligncia israelense, que interrogava gerentes e diretores com perguntas enigmticas, e at pessoais, sem dizer o motivo. "Era uma fase de muita parania. Se o Roger visse uma mnima protuberncia no carpete, ele ordenava uma varredura na sala", lembra Almeida. Mais de vinte integrantes do alto escalo deixaram a companhia ou foram demitidos. Pelo menos um caso teve relao com os grampos: a sada do diretor de logstica Guilherme Laager. VEJA ouviu dois ex-diretores e um ex-conselheiro, que afirmam ter sido informados de seu monitoramento. Um deles at ouviu um dos dilogos interceptados, em que Laager comenta transaes na bolsa de valores com o amigo e subordinado Francisco Nuno Neves. Ao saber da gravao, ele deixou a Vale, em outubro de 2006. A amigos, Laager contou ter relatado a histria a um colega. Era Murilo Ferreira, hoje presidente da empresa  que confirma a conversa, mas nega que se tenha falado sobre grampos. 
     Alm dos diretores, uma dezena de organizaes sociais que davam dor de cabea  Vale estava na mira dos "X9", que pagavam a profissionais terceirizados para morar em acampamentos, filmar reunies, identificar os lderes e antecipar seus passos. Um desses homens produziu relatrios com fotos de encontros do Movimento dos Atingidos pela Vale, em Minas Gerais. Outro agente, de codinome Braz, simulava engajamento em reunies do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que promovia atos de vandalismo contra a empresa em todo o pas. Um desses ataques, no Par, foi filmado em meio a gritos e pedras e machados lanados contra vages da companhia. O vdeo do infiltrado", como ficou conhecido, foi visto por diretores e membros do comit de gesto de crise. Sempre que se queria lembrar que a Vale era vtima e no algoz dos sem-terra, a gravao voltava a ser exibida.  
     O depoimento do ex-gerente ao MP sugere que a espionagem se intensificou nos ltimos anos da era Agnelli, que durou de 2001 a 2011. Eram tempos de aquisies e resultados espetaculares, mas tambm de muito atrito com o PT e o governo federal. Agnelli afirma que no sabia de nada e jamais autorizaria algo ilegal. Ao assumir o comando, Murilo Ferreira cindiu a rea de segurana, deixando Gruba, o chefe da grampolndia, a cargo da diviso de sade e segurana ocupacional. Mas, ao que parece, a mquina no foi desativada. Em fevereiro de 2012, pouco antes de sair da Vale, o ex-gerente de contratos diz que ainda autorizou o pagamento de 11.000 reais pelo grampo em um funcionrio que estaria fraudando uma licena mdica. Questionado, o CEO da Vale foi categrico: "No compactuo com esse tipo de coisa". Uma auditoria interna apura as denncias. 


4. INSATISFAO ESCONDIDA
A Anatel atende a pedido das operadoras e omite uma parte da pesquisa que mede a satisfao dos usurios de telefonia.

     Aferir a qualidade do servio de telefonia, principalmente a celular,  uma tarefa simples, de certo modo. Em algumas cidades, basta tentar manter uma conversa superior a dois minutos ou acessar uma pgina da internet. O veredicto  imediato. A Anatel, a agncia reguladora cuja funo  zelar pela qualidade das telecomunicaes no pas, gastou no ano passado 5,3 milhes de reais para medir cientificamente o grau de satisfao dos usurios. E constatou o bvio: os brasileiros no esto nada contentes. Num universo de 200.000 entrevistados, apenas 29,5% afirmaram estar satisfeitos com o servio de telefonia mvel ps-paga, por exemplo. Na telefonia fixa, o nmero  um pouco melhor: 43,6% elogiaram suas respectivas operadoras. A pesquisa foi divulgada h trs semanas. O que ningum ficou sabendo  que a parte mais interessante do trabalho foi providencialmente escondida: a constatao de que o ndice de insatisfao dos brasileiros com os servios de telefonia aumentou consideravelmente. E foi escondido pela Anatel atendendo a um pedido das operadoras. 
     Os dados  disposio da agncia mostram que, nos ltimos dez anos, ao contrrio do que muitos gostariam de reconhecer, o mercado de telefones fixos e celulares cresceu no sentido inverso da qualidade do servio. Os usurios de hoje esto mais insatisfeitos com o atendimento, os preos e a qualidade dos servios do que estavam h uma dcada.  uma informao que pode ajudar a agncia reguladora a orientar suas polticas em benefcio do cidado. Mas, ao que parece, os interesses nem sempre coincidem. O conluio para omitir os dados se deu numa reunio em 10 de abril, na sede da Anatel, em Braslia. O superintendente de controle de obrigaes da agncia, Roberto Martins, encontrou-se com trinta representantes de empresas de telefonia. To logo os dados comparativos da pesquisa foram apresentados, ouviram-se os primeiros apelos. "A comparao  muito perigosa. Vamos dizer que ela  muito poltica. A primeira coisa que os nossos nobres deputados vo falar  que o servio piorou", disse Raimundo Duarte, gerente de assuntos regulatrios da Claro. No comando da reunio, Martins, em vez de defender os usurios, concordou com as operadoras. No dia da apresentao da pesquisa, nada foi mencionado sobre o quadro comparativo 2002-2012. Procurado, Martins foi enftico: "As operadoras no apitam nada". Apitam mais alto do que se imagina. Avisado de que a combinao havia sido descoberta, o presidente da Anatel, Joo Rezende, tentou minimizar o estrago e marcou uma nova divulgao dos dados para esta segunda-feira, em So Paulo  desta vez, espera-se, de maneira honesta, transparente. 

A SATISFAO CAIU
ndice de satisfao dos usurios (de 0 a 100)

TELEFONIA MVEL
Ps-Pago
Qualidade das ligaes
2002: 72,5
2012: 59
Satisfao geral
2002: 71,4
2012: 53,7

Pr-Pago
Qualidade das ligaes
2002: 73,8
2012: 48,7
Satisfao geral
2002: 77,5
2012: 60

TELEFONIA FIXA
Residencial
Qualidade das ligaes
2002: 79,4
2012: 77,4
Satisfao geral
2002: 72,1
2012: 58,9

Total de entrevistados: 200.000
Fonte: Meta Instituto de Pesquisa/Anatel

ADRIANO CEOLIN


5. FIDELIDADE ABSOLUTA
O governador Srgio Cabral manda dizer ao PT que no aceita a candidatura do partido no Rio de Janeiro e cria mais uma saia justa para Dilma Rousseff em 2014.
DANIEL PEREIRA

     O PMDB  o principal parceiro do PT no governo da presidente Dilma Rousseff. O partido est  frente da Vice-Presidncia da Repblica, preside a Cmara e o Senado e comanda cinco ministrios e dezenas de cargos de ponta em estatais. Os peemedebistas tambm se consolidaram como uma espcie de biombo  ofensiva de radicais petiscas contra a presidente, as instituies e a imprensa livre, angariando um prestgio poltico que  usado pela legenda a fim de lustrar a prpria imagem, associada nos ltimos anos  com razo  ao fisiologismo mais exacerbado. Hoje, no h mais dvida de que Dilma manter o PMDB na chapa  reeleio, com Michel Temer novamente no posto de vice. O partido, sempre visto com reserva pelo PT, tornou-se crucial para a campanha de 2014, inclusive por garantir a Dilma o maior tempo de propaganda eleitoral no rdio e na televiso entre os candidatos. Seria uma parceria quase perfeita se, sob o manto da aliana formal, no existisse desconfiana sobre quanto o PMDB apoiar Dilma de fato. 
     Em 2010, setores peemedebistas trabalharam pelo tucano Jos Serra apesar de o partido integrar a chapa encabeada pelo PT. Essas defeces foram de alas perifricas e no tiveram impacto relevante. No prximo ano, tendem a se repetir, mas desta vez, ameaam expoentes do PMDB, podero ser protagonizadas em estados estratgicos e por puxadores de votos, como Srgio Cabral, governador do Rio de Janeiro. Ex-PSDB, Cabral recorreu a interlocutores para mandar o seguinte recado a Dilma e ao ex-presidente Lula: ele e o PMDB do Rio desembarcaro da campanha reeleitoral se o PT lanar o senador Lindbergh Farias ao governo fluminense. Cabral exige que os petistas apoiem seu vice, Luiz Fernando Pezo, caso no queiram v-los num palanque alternativo. Para reforar a presso, Cabral alega que uma boa votao no estado  essencial para Dilma, uma vez que a tendncia  a presidente colher resultados menos expressivos em Minas Gerais e no Nordeste, devido s provveis candidaturas do senador mineiro Acio Neves, pelo PSDB, e do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, pelo PSB. No primeiro turno de 2010, Dilma abriu uma vantagem de 5,5 milhes de votos sobre Serra em Minas, Pernambuco e Rio  dos quais 1,8 milho nesse ltimo estado. 
     Cabral, que j fez oposio a Lula, refora a ameaa com gestos laterais. O governador autorizou o marqueteiro Renato Pereira, que trabalhava para ele, a fechar contrato com Acio. Essa movimentao ocorre num momento em que polticos de diferentes partidos tentam chantagear Dilma. Em comum, eles tm o interesse de conseguir o apoio do Planalto s suas candidaturas ou cargos num eventual segundo mandato da  presidente. O prprio Cabral sonha com um ministrio. Na semana passada, Dilma disse a um grupo de petistas que no ser refm de chantagens. Disparou especificamente contra o lder do PMDB na Cmara, Eduardo Cunha, um aliado de Cabral que luta pela instalao de uma CPI sobre a Petrobras. H focos de insurgncia ainda, mesmo que apenas retricos, nas bancadas do PMDB do Cear, da Bahia e do Rio Grande do Sul. Todas sem o menor pudor de embarcar, se for conveniente, nas naus de Acio ou Campos. A presidente sabe disso, mas decidiu que o melhor, neste momento,  ignorar as ameaas, at para esvazi-las. Para Dilma, a costura dos acordos regionais demandar meses e a prioridade  evitar que Campos tenha palanques fortes nos maiores colgios eleitorais. Essa meta tem de ser cumprida mesmo que o PT seja obrigado a abdicar de candidaturas. Isso no significa que o lobby de Cabral render frutos. 
     Dilma e Lula dizem que Lindbergh s no ser candidato se Cabral conseguir "fabricar" decises nos tribunais fluminenses que inviabilizem o petista. Apostam ainda que o PMDB, at para preservar as chances de vencer no Rio, abrir o palanque para a presidente. "A presso do PMDB no  uma demonstrao de fora, mas de fraqueza", diz Lindbergh. O prprio senador recorreu a uma chantagem para se defender. Ele estimulou o boato de que, se fosse rifado pelo PT, concorreria ao governo pelo PSB de Campos. Na semana passada, Dilma reafirmou que quer a aprovao do projeto que inibe a criao de partidos, a fim de impedir o fechamento de alianas pelos adversrios, incluindo Marina Silva. O PT tambm intensificou o assdio a governadores do PSB, que so procurados com a oferta de ajuda  reeleio ou avisados de que o Planalto apoiar rivais deles em 2014. A ideia  que esses governadores convenam Campos a adiar a candidatura presidencial, misso da qual Lula j desistiu. "Disse ao Eduardo que o projeto de candidatura a presidente deve ser guardado para 2018", declarou a VEJA o ministro da Integrao Nacional, Fernando Bezerra, indicado ao posto pelo governador.  impossvel saber o grau de veracidade da declarao de Bezerra. O jogo duplo anda em alta. Todos conversam com todos  menos com o eleitor, que ainda no ouviu uma msera palavra sobre como o governo "pode fazer mais" pelo pas, tal qual promete o slogan de obviedade ululante disputado, como se fosse a quintessncia da clarividncia, por petistas, tucanos e socialistas. 
COLABOROU ADRIANO CEOLIN


6. S PARA TUMULTUAR
Em recursos apresentados ao Supremo Tribunal Federal, condenados no processo do mensalo lanam mo das ltimas armas para tentar adiar o cumprimento das penas.

     Pouco antes do veredicto do Supremo Tribunal Federal que condenou  priso os protagonistas do mensalo, o maior esquema de corrupo poltica da histria do pas, os ministros da corte discutiram, em conversas informais e reservadas, as chances de prosperarem recursos dos advogados de defesa com potencial de modificar as penas arbitradas aos rus. A opinio dominante no tribunal era que os chamados embargos infringentes, comuns em instncias inferiores e capazes de dar aos condenados a possibilidade de um novo  julgamento, no seriam cabveis na mais alta corte do pas. "O entendimento era que, no Supremo, esse tipo de recurso no poderia nem sequer ser aceito", disse a VEJA um dos ministros mais empenhados no debate sobre o assunto. O dilema ser enfrentado em breve pelo tribunal, e o resultado desse debate indicar a real possibilidade de as condenaes serem revistas. Em outras palavras, o STF vai decidir se haver um novo julgamento. 
     Por mais improvvel que seja, a defesa dos rus ainda tem esperana de livrar os mensaleiros da priso  e espalha verses otimistas. A mais recorrente  que j haveria nmero suficiente de votos em plenrio a favor da admissibilidade dos embargos infringentes. Dos dez atuais integrantes da corte, cinco estariam a favor do acolhimento desses recursos. Como o empate favorece os rus, o nmero j seria suficiente para que o plenrio analisasse os embargos  que, como o nome diz, servem para questionar pontos do julgamento que possam ter infringido a lei. S quando o assunto chegar ao plenrio ser possvel saber se o placar se confirmar. Na semana passada, terminou o prazo de dez dias para que os condenados apresentassem os embargos de declarao, um outro tipo de recurso. Os advogados podem cobrar esclarecimentos de trechos do acrdo eventualmente obscuros, apontar omisses ou alguma contradio. A defesa, porm, aproveitou a oportunidade para pedir desde a anulao completa do julgamento at o afastamento do relator do processo, ministro Joaquim Barbosa. 
     Alm de ganharem tempo, alguns advogados acreditam na possibilidade de conseguir, nesta etapa, ao menos a recontagem das penas estipuladas aos condenados. Isso j seria suficiente para permitir que o ex-ministro Jos Dirceu, por exemplo, pudesse ter sua sentena de dez anos e dez meses de priso em regime fechado reduzida, o que o livraria da cadeia em tempo integral. No caso extremo de a sano ser recalculada para menos de oito anos, Dirceu poderia trabalhar durante o dia e apenas dormir na priso. Nos recursos apresentados pelos demais condenados, os argumentos contra o veredicto so os mais variados. Alguns afrontam o Supremo. A defesa de Delbio Soares, tesoureiro do esquema, pe em questo a capacidade intelectual dos ministros que o julgaram. Chega a afirmar que os votos dos ministros so "ilegveis" e trazem situaes que "beiram o ridculo". O deputado Jos Genoino sustenta que foi condenado com base em ilaes. Jos Dirceu quer que o ministro Joaquim Barbosa, presidente da corte, seja destitudo da funo de relator do processo. 
     As chances de que pleitos como esses sejam atendidos so praticamente nulas. Alm dos esperados ataques ao veredicto, os recursos tm em comum os pedidos de anulao do julgamento e de reduo das penas. Operador das engrenagens mensaleiras, o empresrio  Marcos Valrio de Souza questiona por que nem o Ministrio Pblico, na acusao, nem os ministros, no julgamento, levaram em conta o fato de ele ter fornecido, ainda na fase de investigao, a lista dos polticos que receberam o dinheiro sujo do esquema. Pela colaborao, Valrio considera que sua pena, de mais de quarenta anos de priso, deveria ser reduzida em dois teros. A tramitao dos recursos deve ser clere. To logo o Ministrio Pblico se manifeste sobre os argumentos apresentados pelos advogados dos condenados, Joaquim Barbosa dever lev-los  apreciao do plenrio. Na sequncia, os ministros vo enfrentar a polmica sobre os embargos infringentes  primeiro, se eles so cabveis e, caso decidam que sim, se tm algum fundamento. A prevalecer o entendimento que havia entre os integrantes do STF antes do julgamento, a cadeia para os mensaleiros condenados continua bem ntida no horizonte. 

CRIME, CASTIGO E ESPERNEIO
Os mensaleiros recorreram, na semana passada, do veredicto que os condenou  cadeia. Eles pedem desde a anulao da pena at a sada do ministro Joaquim Barbosa do caso. As chances de xito so pequenas. A seguir, os argumentos de alguns deles.

JOS DIRCEU
 Condenaes
Formao de quadrilha e corrupo ativa
 Pena
10 anos e 10 meses em regime fechado
 O que alega
Diz que, no clculo da pena, os ministros consideraram mais de uma vez a acusao de que ele chefiou a quadrilha
 O que deseja
Pede o afastamento de Joaquim Barbosa da relatoria do processo e a reduo da pena, o que pode livr-lo do regime fechado.

JOSE GENOINO
 Condenaes
Formao de quadrilha e corrupo ativa
 Pena
6 anos e 11 meses em regime semiaberto
 O que alega
Sustenta que os crimes pelos quais foi condenado so "imaginrios" e que no houve compra de votos no Congresso
 O que deseja
Reduo da pena. 

DELUBIO SOARES
 Condenaes
Formao de quadrilha e corrupo ativa
 Pena
8 anos e 11 meses em regime fechado
 O que alega
Diz que os votos dos ministros formam uma "colcha de retalhos"
 O que deseja
Por no ter foro privilegiado, pede um novo julgamento na primeira instncia.

MARCOS VALRIO
 Condenaes
Formao de quadrilha, lavagem de dinheiro, corrupo ativa, peculato e evaso de divisas
 Pena
40 anos, 4 meses e 6 dias em regime fechado
 O que alega
Diz que os ministros e a acusao no levaram em conta o fato de ele ter colaborado com a investigao ao revelar a lista dos beneficirios do esquema 
 O que deseja
Reduo da pena em dois teros.


